
AssociacaoArkal
- 7 de julho de 2025
Um testemunho de fé e esperança nas feridas mais profundas
Existem histórias que não se contam com facilidade. Histórias de dor, de perdas, de silêncios atravessados por lágrimas. Mas há também histórias onde o sofrimento se transforma, aos poucos, em caminho. Foi isso que aconteceu com o grupo italiano “Famiglie in cammino”, que há mais de trinta anos acompanha pais e mães que perderam seus filhos de forma precoce e inesperada. Um testemunho que hoje inspira também o trabalho da ARKAL, no Acre, junto às famílias mais vulneráveis.
O nascimento de uma fraternidade inesperada
Tudo começou em 1991, durante um encontro espiritual na cidade de Rimini, na Itália. Alguns pais enlutados se encontraram por acaso e, compartilhando suas dores, nasceu entre eles um desejo: o de ajudarem-se mutuamente para atravessar aquele luto aparentemente sem fim.
A partir daquele encontro, sob a orientação do padre Giancarlo Greco, começou um caminho de escuta, oração e partilha. Nos primeiros encontros, os participantes choravam, desabafavam, buscavam compreender o que havia acontecido com suas vidas. Lentamente, algo novo começou a surgir: a esperança de que aquela dor, vivida à luz da fé, pudesse se transformar em caridade concreta.
Um método: acompanhar com presença, sem fórmulas prontas
O grupo não seguiu um plano pré-estabelecido. Foi se formando de maneira natural, a partir da urgência de não ficar sozinho. Como diz Dom Giancarlo, o “método” nasceu quando o grupo decidiu viver a dor à luz de uma esperança maior, a esperança cristã. A dor não era ignorada, mas também não era o único tema: o que emergia era a totalidade da vida.
Essa experiência cresceu. Hoje, o grupo reúne mais de 150 famílias em diversas cidades italianas. Encontram-se regularmente para rezar, conversar, conviver e apoiar-se. A porta está sempre aberta a todos os que, enfrentando um luto profundo, desejam encontrar um lugar onde sua dor possa ser compreendida, acolhida e acompanhada.
Testemunhos que tocam a alma
As histórias são muitas, e nenhuma igual à outra. Marisa e Marcello perderam o filho Mirko, de 15 anos, e dizem:
“Temos o direito e o dever de continuar a ter esperança. Fechar o coração seria como perder nossos filhos de novo. A vida precisa continuar com sentido”.
Stefano, outro pai, rejeitava qualquer ideia de ajuda. “A dor é minha, ninguém pode entendê-la”, pensava. Até que decidiu participar de um encontro. Uma simples refeição com outras famílias foi o ponto de virada. “Ali encontrei pessoas que sabiam o que era perder um filho. Pessoas que recolheram os pedaços da minha humanidade quebrada.”
Giuseppe, pai de Matteo, descreve o dia da morte do filho como um terremoto interior:
“’Morto’. Era uma palavra que nem existia no meu vocabulário. Mas Deus me escutou. Me deu os amigos de Famiglie in cammino, que com seu testemunho reacenderam em mim o desejo de viver.”
Quando o sofrimento se transforma em doação
Don Giancarlo explica: “O filho não é uma posse. É um dom. E quando esse dom nos é tirado, somos chamados a lembrar. A memória, vivida na fé, transforma o sofrimento em amor, em caridade.”
Esse amor se expressa até em decisões concretas, como a de um casal que, após perder a filha em um acidente, decidiu adotar duas outras crianças. Ou como Serena e Teodoro, pais de Misael, morto por um tumor cerebral, que hoje transformam a dor em poesia e presença para outros pais que sofrem.
O que ARKAL aprende com essa experiência
Na ARKAL, reconhecemos esse caminho. Nosso trabalho com famílias vulneráveis no Acre também é feito de escuta, presença e partilha. Acreditamos que não há dor que não possa ser acompanhada, nem ferida que não possa ser cuidada com amor verdadeiro.
Por isso, inspirados por experiências como a de Famiglie in cammino, seguimos firmes em nossa missão: construir um lugar onde cada dor seja acolhida com respeito, e cada família reencontre o sentido de viver, mesmo depois da perda.